
São quatro da manhã na minha cidade.
A calma dos carros encostados para dormir só é interrompida por um sussurrar de passos cansados, expectantes.
De quando em vez lá passa um carro, um turista perdido à procura do hotel depois de uns digestivos a mais.
A noite olha-me de lado como a um estranho, desconfiada, curiosa pelo rilhar desta caneta nesta folha de papel.
São só palavras, minto eu. Só mais umas palavras enquanto os olhos marejados de lágrimas me obrigam a parar um pouco.
Acendo mais um cigarro.A minha ponte para ti teima em não tocar. De todos os ruídos e sons que me podiam trazer felicidade o que mais quero ouvir é a tua voz anunciada pelo toque metálico do telemóvel.
Hoje sinto-me um bocadinho como este cigarro que repousa nos meus lábios. Sinto-me queimar devagarinho. A culpa é do oxigénio. A culpa é desta boca ávida que me suga. A culpa é do isqueiro que começou tudo isto.
O amor, essa besta quadrada que ainda não aprendeu que não se pode amar sozinho, que não podemos beijar os próprios lábios, nem Narciso o conseguiu.
Cansado olho esta branquidão que me fere os olhos e tento convencer-me que esta noite é um pesadelo.
Como dizia o outro - "... e o dia começou tão bem...". Acho que o álcool que consegui ingerir já conseguiu ser apaziguado pela minha corrente sanguínea.
O pouco bem estar que esse torpor me concedia já passou e agora só resta a lucidez.
A lucidez suficiente para saber que me dói cada centímetro desta folha de papel.
A lucidez suficiente para me recordar que não te tenho.
Sou um actor sem drama, um cantor sem voz, um cigarro quase fumado.
Passa um casal de mãos dads com uma noite de amor ainda pela frente.
Como vos odeio! Como amo a felicidade que emana destes dois.
Dá-me vontade de os agarrar pelos ombros e abaná-los, chocalhá-los até conseguir faze-los desaparecer da minha vista... seria por isto?
Bem, mais vale fechar os olhos e esperar que se afastem.
Sinto-me aquele cão vadio que um bando de crianças chuta sem piedade só pelo prazer de provarem um pouco a sensação de poder, de impunidade.
Eu só queria ser feliz. Um bocadinho.
Queria passar o resto da vida a tentar merecer-te, merecer-me, merecer-nos.
Sinto-me um presente barato de uma gift-shop da Baixa a querer escolher o comprador enquanto uma série de turistas me toca, me tira da prateleira para espreitar o preço até decidirem que não valho nem meia vida, nem meio ano, se calhar só mesmo uma noite.
Esta noite em que o meu coração fala mais alto do que a minha voz.
Mais uma noite em que consegui ser fiel ao meu amor.
Sinto-me orgulhoso de mim, sinto-me bem ao olhar o reflexo no espelho.
Só a cama me espera, nunca a tua voz!
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