
quero deixar de ver estrelinhas onde só há nevoeiro
quero deixar de desenhar corações com os dedos no teu corpo
quero deixar de sonhar com os pesadelos do amanhã
quero dizer-te que não
deixou de haver espaço para mim debaixo dos teus pés
larguei as asas para te acompanhar, num passo incerto que não me levou a lado nenhum
abandonei o tempo para deixar de não ter tempo para ti, ou para esperar por ti
sei agora que tudo foi em vão. sei que afinal eu nem te queria tanto assim, porque não se pode querer o que já se tem, eras meu por imposição da vida, dos caminhos, por imposição divina, de quem não vê por dentro de nós
larguei as asas para te acompanhar, num caminho sem fim que eu afinal nem queria percorrer
fui teu. Sim fui teu. quis ser teu por saber que não seria para sempre.
quis acreditar que seria para sempre. Apesar de não ser sempre.
Não conseguimos cantar juntos. Nem dançar juntos
quero dizer-te que não
já não há inevitabilidade que nos junte, já não há horas certas, nem caminhos de encontros, já não há futuro, nem coisa nenhuma que se pinte de sol.
De nós aqui restamos nós. Eu e tu. Sem planos. Nem desejos. Nem coisas bonitas para se dizer. Sem olhares. Sem compassos certos. Sem banda sonora. Eu e tu.
Separa-nos agora o tempo que se esgotou. Separa-nos as lágrimas que nunca foste capaz de chorar. Aquelas que eu chorei por ti. Separa-nos os sorrisos todos que queremos guardar. Separa-nos um oceano de prazeres, que já não desejamos. Separa-nos um compasso trocado e um passo errado.
Não sei qual de nós escolheu o fim. Nem porque nos apeteceu tanto não sofrer.
Sei, como sei o Sol, que nos separa qualquer coisa que nunca mais nos pode juntar.
Separa-nos o fim de nós no esgotamento natural dos sentimentos.
No esvaziar das palavras sem sentido.
chega de coisas bonitas
chega de promessas perdidas
chega de ouvidos vazios
chega de nos inventarmos quando afinal nem nos queríamos
chega de beijos em troca de fingirmos desejos
o meu caminho não é por aqui e sei que o teu passa por uma lagoa azul lá na terra do sol.
o meu é mais céu.
Voltou a colocar as asas.
Percebeu que nunca é tarde para se tentar mais uma vez.
Subiu a uma rocha pendente sobre o mar.
Respirou fundo.
Abriu as asas……E voou
é assim que me quero amanha.
De asas abertas.
De olhos no mar.
de sonhos vazios para poder voltar a acreditar no amor.
Só longe de ti. Só longe de ti posso voltar a amar.… E voar
E dizer-te não só mais uma vez… A última vez…